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Um video tour por Berlim

24/01/2019

Poucas cidades são capazes de ensinar aos visitantes tanto sobre a História recente da humanidade como Berlim.

Por Erik Sadao. Especial para a The Traveller

A cidade renascida duas vezes no último século assume seu posto, novamente, como o epicentro da vida criativa da Europa e da vanguarda dos movimentos artísticos que invariavelmente ganham o mundo. A diversidade, principal matéria-prima responsável por fazer com que a criatividade e, logo, as artes floresçam, encontra-se farta em Berlim há mais de um século. Historicamente, foi durante o boom da revolução industrial que imigrantes de diversas regiões da Europa e do Oriente Médio começaram a chegar por lá para trabalhar nas inúmeras fábricas que surgiam em seus arredores. Junto com eles, uma demanda crescente por diversão fez surgir uma indústria cultural com expressões artísticas que acabaram influenciando o mundo moderno, como os cabarés e o expressionismo no cinema e nas artes em geral. E se nos dois maiores conflitos bélicos do último século houve tentativas claras de extingui-la, ela, a diversidade, resistiu e foi responsável por reconstruir a cidade, devolvendo seu lugar de direito no topo ranking dos hubs mais criativos do mundo.

Para entender as inúmeras mudanças sofridas na cidade, que acabaram por criar verdadeiras camadas em sua arquitetura, principalmente, durante e após a Guerra Fria, a melhor pedida é fazer um video tour pelas ruas e construções junto com um guia especialista em assuntos como arte, guerras, moda, cinema etc. Como a cidade foi uma das primeiras a ter registros em vídeo de sua História, um documentarista reuniu imagens que complementam a explicação dos guias, proporcionando uma experiência multimídia outdoor. É impossível não se emocionar ao visitar lugares como a Bebelplatz, a praça que durante a Segunda Guerra Mundial foi palco da queima de livros ordenada por Hitler em diversas cidades universitárias.

No video tour, enquanto visitamos o monumento, podemos ver imagens reais dos estudantes sendo obrigados pelos soldados nazistas a jogar os livros na fogueira, como se fôssemos, também, testemunhas de um dos mais tristes momentos da História recente. Durante a Guerra Fria, a principal avenida de Berlim, a Unter den Linden, ficou sob domínio soviético e as construções clássicas, que haviam sido destruídas durante a Segunda Guerra, deram lugar a modernos prédios construídos para impressionar o lado Ocidental da cidade. Após o fim da Guerra Fria, praticamente todos os prédios até a altura da Alexanderplatz foram destruídos para dar lugar a construções neoclássicas idênticas às do período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial. No video tour é possível ver os prédios originais antes e após os ataques.

O Muro de Berlim, que separou a cidade durante a Guerra Fria, é, claro, uma das principais personagens do programa. Em diversos pontos, é possível ver imagens originais do muro e entender melhor como era a separação entre as Alemanhas Oriental e Ocidental e, em especial, como a Berlim Ocidental estava ilhada dentro do lado Oriental. A cada parada, é possível assistir a depoimentos de moradores de ambos os lados, que viveram parte da vida – muitos durante a adolescência – na Berlim dividida. Discursos históricos como os de John Kennedy podem ser vistos no exato ponto onde estava montado o palanque em junho de 1963. Na frente do Portão de Brandeburgo é possível ver outro presidente americano, o republicano Ronald Reagan, desafiando o então líder da União Soviética Mikhail Gorbachev a derrubar o muro como um símbolo de crescente liberdade dos países do bloco do leste. E para entender a tensão que o mundo vivia na época, no Checkpoint Charlie, o mais famoso ponto de passagem entre as duas partes da cidade, podemos ver as fatídicas imagens de 1961, quando tanques americanos e soviéticos se posicionaram prestes a se atacar colocando o mundo todo em alerta.

Para os fãs de música, é possível preparar uma verdadeira viagem no tempo, com auxílio do video tour, visitando os pontos por onde passaram gente como David Bowie, Lou Reed e Iggy Pop nos anos 1970. O nascimento da música eletrônica, que tem raízes fortes na cidade, inspirou as primeiras batidas criadas pelos sintetizadores do Kraftwerk, da vizinha Dusseldorf, que acabaram influenciando artistas do mundo todo. É possível ver – e escutar – o que acontecia em Berlim durante a explosão
das raves e das love parades, após a queda do muro, no começo dos anos 1990. Foram as festas surgidas na cidade para celebrar o amor e a diversidade que deram o tom dos festivais que hoje pipocam em todos os continentes. 

Mas se Berlim pode ser considerada o grande museu aberto de nosso tempo, os tesouros guardados nos prédios da Museumsinsel, a ilha que reúne os principais museus da cidade, no coração do bairro Mitte, remontam suas épocas de glória no Império Romano-Germânico e, posteriormente, na era dos Kaizers. Para quem busca um mergulho direto na contemporaneidade do mundo das artes, o endereço obrigatório é o Urban Nation, o primeiro museu do mundo completamente dedicado à street art. Obras de Banksy, Ron English, Blek le Rat e de artistas de rua do mundo todo convidam os visitantes a refletir sobre sua relação com movimentos e estilos consagrados, como o impressionismo, o expressionismo, o dadaísmo, o autorretrato etc. 

O museu está localizado em Schöneberg, bairro que dialoga em diversidade e estilo com Kreuzberg, lar dos icônicos grafites que estampam viadutos e prédios que dão espaço a charmosos cafés e restaurantes, com uma identidade tão forte que só podem ser chamados de estilo Kreuzberg. É, claro, lá que se concentra grande parte da vida noturna e criativa da cidade. Para finalizar a imersão artsy em Berlim, na East Side Gallery, a galeria ao ar livre criada ao longo das margens do rio Spree – nos trechos do muro que não foram demolidos – exibe alguns dos grafites mais famosos do mundo. Também às margens do rio está a Yamm, um centro de cultura alemã que conta com balada, escola de grafite e galeria aberta com trabalhos de artistas do mundo todo. Em um ambiente para lá de informal, com chão de terra batida e arte urbana por todos os lados, os visitantes são convidados a criar sua própria arte munidos de sprays, acompanhados por grafiteiros profissionais. A experiência é fascinante e faz refletir sobre o valor real da arte que vemos surgir em nossos centros urbanos o tempo todo. Famílias e grupos de amigos se revezam, colorindo os muros e, quando terminam, apreciam suas obras petiscando CurryWurst, a junkie food oficial da cidade, e brindam – com uma das encorpadas cervejas artesanais alemãs – sem perceber, o privilégio de vivenciar tanto respeito à diversidade.

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