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No Caminho do bem

28/03/2019

Por Adriana Nazarian e Marianne Wenzel* Especial para a The Traveller

Conheça projetos que estão fazendo a diferença na busca por um mundo mais verde.


Camuflado
Estar totalmente imerso na natureza é o grande diferencial desse premiado eco-hotel no coração dos Alpes suíços.

Verde no verão, branco no inverno. Até a cor que reveste os pods, espécies de casulos que servem de quartos no suíço Whitepod, são adaptáveis à natureza. Criado em 2004, o premiado eco-hotel em Valais, no coração dos Alpes, surgiu com a missão de provar que conservação ambiental e hospitalidade de luxo podem coexistir. Passar uma temporada por lá significa realmente se engajar com a causa: o uso de água e energia é controlado, o lixo reciclado e a escolha de produtos locais – do vinho à carne – é prioridade sempre. Como o transporte foi propositalmente restringido, os visitantes precisam caminhar da recepção até seus pods em um trajeto de 15 minutos ao som do mais absoluto silêncio – no inverno, snowshoes, assim como ski e snowboard, estão inclusos na diária. Todo o staff, vale dizer, mora nas redondezas e vai a pé para o trabalho.

Seja qual for a sua cabana deluxe – há quatro tipos, incluindo uma versão ainda mais turbinada com sauna –, preste atenção aos detalhes que vão muito além da vista. O aquecimento, por exemplo, é feito através de um pellet de madeira e as lareiras ainda ajudam a reduzir esse consumo. E, se desmanchados, os pods acabariam se integrando à natureza, deixando quase nenhum vestígio do hotel – apenas as boas histórias dos viajantes.


Paraíso protegido
Por trás das águas paradisíacas das Maldivas, um projeto de conservação da vida marinha tem trazido ainda mais sentido aos mergulhos na região

Não teria como ser diferente: logo que desembarcam no Velaa, refúgio escondido em um arquipélago particular nas Maldivas, os visitantes ficam fascinados pelo azul-turquesa do mar. Mas não é só a paleta que torna aquele pedaço do Oceano Índico realmente especial. A barreira de corais que circunda a ilha ajuda a turbinar o cenário, além de ter papel vital para o ecossistema – é ela quem serve de abrigo e comida para peixes, lagostas e caranguejos. De olho nisso, o hotel mantém um programa de restauração dos corais desde 2016. Para criar um habitat autossustentável e diversificado, especialistas plantam os corais em berçários flutuantes da maneira mais natural possível para, mais tarde, transportá-los aos locais de origem. Os números indicam o sucesso do projeto: 2 mil colônias já foram levadas para a barreira – a taxa de sobrevivência é de 95%! Hoje, quem consegue deixar os luxos irresistíveis do Velaa, como a piscina do próprio bangalô ou a massagem com vista para o mar, para se aventurar em um mergulho, já colhe os frutos desse progresso. Novas espécies de corais não param.

Velaa Private Island: projeto de conservação da vida marinha nas Maldivas

Do começo ao fim
Parte de uma reserva natural, o Arakur Ushuaia foi totalmente pensado para não interferir com a flora e a fauna locais

​Não foi à toa que Leonardo DiCaprio, um dos atores mais engajados quando o assunto é sustentabilidade, elegeu o Arakur Ushuaia, na Patagônia, para se hospedar durante a gravação de O Regresso. A piscina infinita, espécie de camarote para o Canal de Beagle e a cordilheira montanhosa dos Andes, impressiona, claro, mas a escolha vai muito além. Localizado na reserva natural de Cerro Alarkén, o hotel foi pensado nos mínimos detalhes para não interferir com o meio ambiente. Para começar, o projeto apostou em materiais da região – daí as paredes revestidas de pedras removidas durante a construção da base do edifício; a madeira de árvores como Palo Santo na decoração; e o paisagismo feito com plantas nativas, que não exigem irrigação. As iniciativas sustentáveis seguem por toda parte: a estrutura é feita de cobre e lã, isolantes térmicos naturais; a água das chuvas e do degelo é reutilizada na limpeza e nas piscinas, e um sistema inteligente de tecnologia controla a temperatura e poupa energia. Isso significa que, enquanto você aproveita o sossego do seu quarto com enormes janelas de vidro e vista panorâmica, ou explora a fauna e a flora locais ao lado de guias especializados – agora no verão, é a chance de ver raposas, castores, pica-paus e pinguins –, a natureza agradece.


Todos pela África
Da unidade canina que combate a caça ilegal à escola de culinária voltada para a comunidade: há mais de 20 anos, o grupo Singita luta pela preservação do meio ambiente e das comunidades africanas

Tony, Popo, DJ e Radar: quem vê os quatro cachorros circulando pela reserva que envolve o Singita Grumeti, na Tanzânia, mal imagina o esforço feito para que eles chegassem até ali. Os animais foram resgatados de abrigos nos Estados Unidos e treinados para ajudar a combater a caça ilegal que acomete o destino africano. E o mais interessante é que os custos do projeto foram bancados por um casal de hóspedes apaixonado pelo engajamento do Singita, companhia que há mais de 20 anos luta pela preservação da África – com premiados lodges e campings espalhados pela África do Sul, Zimbábue e Tanzânia. A Reserva de Grumeti, por exemplo, ganhou um fundo dedicado ao assunto, que hoje já soma mais de 1.700 jovens formados em seu centro de educação ambiental. Outra escola, a de culinária, acaba de finalizar sua primeira turma com moradores de 21 vilas ao redor das reservas da Tanzânia, agora aptos para trabalhar nos lodges do país. Mais do que estar cara a cara com rinocerontes, leopardos e outros animais raros, se hospedar em uma das propriedades do Singita é ter a chance de conhecer a fundo a vida local. Prova disso é outro programa recente, que convocou hóspedes para uma corrida de até 90 quilômetros em pleno cenário selvagem da Reserva de Grumeti, com objetivo de levantar fundos para projetos que empoderam meninas e mulheres da região.

Em dois dos mais importantes biomas brasileiros, a Mata Atlântica e a Amazônia, uma fazenda e um hotel conciliam educação ambiental e interesse turístico


A história de volta
Restaurada e agora aberta ao público, a Fazenda Bananal oferece, a um só tempo, uma viagem ao passado e um olhar para o futuro de Paraty, no litoral fluminense

O bairro paratiense Ponte Branca deixou de ser apenas passagem para quem visita as cachoeiras no pé da serra ou segue rumo pela estrada Paraty-Cunha. Desde junho de 2017, a reabertura da Fazenda Bananal colocou a região no radar dos viajantes. Construída no século 17, ela passou pelos ciclos do ouro e do açúcar, produziu cachaça e farinha de mandioca e é reconhecida como bem cultural de interesse especial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Ainda assim, amargou anos de abandono e decadência até ser comprada, em 2015, pelos mesmos donos da Pousada Literária, no centro histórico da cidade. A recuperação do complexo passou por estudos em conjunto com o Iphan que nortearam o restauro do casarão, o reflorestamento do terreno e a construção de novos pavilhões para acomodar recepção, restaurante e salas de aula. A cargo dos arquitetos cariocas Bel Lobo e Bob Neri, o projeto concilia design e simplicidade, fazendo bom uso de tradições rurais como taipa, tábuas de madeira, venezianas e telhas cerâmicas. Em menos de um ano de funcionamento, o lugar já havia recebido todas as escolas públicas de Paraty para suas atividades educacionais com foco em sustentabilidade e já capacitava a segunda turma de pequenos produtores rurais. Em novembro, abrirá uma nova trilha na Mata Atlântica da propriedade, totalmente acessível. Hóspedes da Pousada Literária são presenteados, no check-out, com uma cesta de produtos cultivados ou fabricados ali. Mas o passeio e a experiência gastronômica estão abertos a todos – o restaurante funciona todos os dias, das 11h às 18h.


Imersão na selva
A cerca de 200 quilômetros de Manaus, num trecho onde o Rio Negro chega a 20 quilômetros de largura, situa-se um dos maiores arquipélagos fluviais do mundo: o Parque Nacional de Anavilhanas. É possível desfrutá-lo tendo como base um hotel que prima pela sustentabilidade

Do rio, apenas o píer e o deck flutuante sugerem que, mata adentro, pode haver mais sinais de ocupação humana. Embora não se localize dentro do parque nacional, o Anavilhanas Jungle Lodge é vizinho imediato dele – e, ao se instalar ali, fez questão de manter-se discreto em relação à majestosa paisagem que se reflete nas águas escuras do Rio Negro, habitat de botos-cor-de-rosa e destino de visitantes provenientes de todos os cantos do mundo. Afastados da margem, chalés, bangalôs e áreas comuns do hotel ocupam porções do terreno que já continham pequenas clareiras, numa implantação planejada para evitar ao máximo a retirada de árvores. Erguidas sobre palafitas, como manda a tradição local, todas as construções são modulares e empregam madeira de manejo florestal, que chegou ao local já pronta para a montagem e, assim, evitou geração de entulho. O cuidado com a arquitetura fortalece o conceito de turismo sustentável praticado pelo empreendimento e transmitido aos hóspedes em todas as atividades, escalonadas conforme o perfil do viajante e a extensão da estadia. Desde sua inauguração, em 2007, o hotel quase triplicou a área do terreno destinada à preservação – hoje, são 130 mil metros quadrados – e ampliou o apoio a comunidades locais, especialmente na área da educação.

*Com passagens por revistas como Joyce Pascowitch, Trip e Poder, a jornalista Adriana Nazarian é apaixonada por comportamento e tendências de viagens e assina a matéria ao lado da Marianne Wenzel, especializada em arquitetura e cidades, e colaboradora de publicações como Casa Vogue e Veja.

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