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Road trip Escócia

22/02/2019

Da vibrante capital à idílica costa, e com inegável tradição em destilados, a Escócia convida a uma viagem deliciosa entre praias, castelos e terras altas cheias de lendas e história

Por Mari Campos*. Especial para a The Traveller


Não faz tanto tempo assim que os kilts voltaram a ser símbolo importante do orgulho escocês – inclusive politicamente. Estão presentes nos casamentos e outros eventos formais, mas também são facilmente vistos nas ruas, nos bares, nos restaurantes e até nos uniformes de funcionários de alguns hotéis e lojas. Com ou sem kilt, é impossível não se deixar seduzir pela história, pelas lendas, pela música e pelos costumes da Escócia. Parte integrante do Reino Unido, e ocupando o terço norte da Grã-Bretanha, seu território é composto também por mais de setecentas ilhotas. Mesmo soberana e independente graças a movimentos liderados por William Wallace (Coração Valente, quem lembra?) e outros, foi ainda no século 17 que a Escócia formou sua primeira aliança com os reinos da Inglaterra e da Irlanda – que um século depois se tornaria oficialmente o Reino Unido da Grã-Bretanha.

Os cenários da Escócia remetem a tempos passados, cheios de História e imagens fantásticas

Hoje, as terras também chamadas de Caledônia inspiram filmes e seriados (como The Outlander, que virou recentemente febre em diversos países) e uma legião de turistas que terminam suas viagens encantados pelas belezas naturais do país e pela “boa-pracice” impressionante de seu povo. Uma curta caminhada desde a cidade antiga (Old Town, marcada pela Royal Mile) até a cidade nova (New Town, marcada pela Princes Street), nos dá uma ideia do próprio perfil inclusivo escocês: edifícios seculares, vitorianos e contemporâneos lado a lado, ocupados famílias, por empresas, lojas, restaurantes, bares, hotéis e até museus. Segura, Edimburgo é um convite para explorar suas ruelas, ladeiras e esquinas. Além disso, a cidade dos festivais – são inúmeros ao longo do ano todo, sendo o Fringe e o Edinburgh Arts Festival dois dos mais importantes festivais culturais do mundo – está em constante ebulição cultural.

O Castelo de Edimburgo é a atração mais visitada do país e marca o começo da Royal Mile, a prestigiosa rua que se estende por uma milha até o Palácio de Holyrood, residência real. É também na cidade antiga que ficam a Biblioteca Nacional, o Museu Real da Escócia, os barzinhos e cafés de Grassmarket e a colorida Victoria Street, uma das ruas mais “instagramadas" do mundo. Entre tantos cafés, é o The Elephant House que tem filas na porta, não importa o horário: foi justamente ali que a escocesa J. K. Rowling teria começado a escrever sua série de livros Harry Potter.

Atravessando o Princes Street Garden, bastam 15 minutos para cruzar a fronteira à parte nova da cidade – mas não sem antes visitar a imperdível National Gallery com seus Monets, Renoirs e Picassos. New Town virou zona boêmia à noite e durante o dia é o centro comercial (das fast fashion às grandes grifes), contando até com sua própria Harrods. Mas é preciso deixar a região central de Edimburgo para apreciar ainda mais sua beleza. É das montanhas Arthur’s Seat e Calton Hill – passíveis de subir em um agradável passeio – que temos as vistas mais arrebatadoras da cidade, alcançando até o mar nos dias mais limpos. Também merecem a visita: Dean Village, bairro residencial onde ficam duas excelentes galerias de arte moderna e contemporânea, e Leith, a zona portuária que foi totalmente revitalizada nos últimos dois anos e hoje reúne deliciosos bares, restaurantes e cafés. Cidade de bistrôs românticos e restaurantes descolados por toda parte, conta também com nada menos que cinco restaurantes estrelados no Michelin, provando que Edimburgo entende de beber, mas entende muito da boa mesa também.

Glasgow, a maior cidade
Décadas atrás, Glasgow tinha uma péssima fama. Hoje é uma das cidades mais vibrantes culturalmente de todo o continente europeu. É de uma das travessas da Buchanan Street, a principal artéria comercial da cidade, que temos acesso à Merchant City, um microbairro dentro da zona central repleto de cafés, pequenos bares e galerias de arte que hoje ocupam, cheios de estilo, antigos armazéns de tabaco e café. São mais de 20 museus e grandes galerias de arte, incluindo a premiada Burrell Collection, o imperdível Kelvingrove Museum and Art Gallery e o arrojado Riverside Museum, projetado pela iraniana Zaha Hadid. Aliás, fãs de arquitetura se encantam também com o The Lighthouse, o centro nacional de arquitetura e design da Escócia, e também com as obras de Charles Mackintosh, o mais famoso arquiteto e designer escocês. As construções históricas e georgianas do centro de Glasgow agora contrastam com edifícios espelhados abrigando novas empresas.

É na low profile Glasgow que a atual gin fever britânica está com tudo, seja nas diversas destilarias da bebida que abriram suas portas na cidade ou nos muitos bares especializados, como The Finnieston, Alston ou Gin71. A experiência mais gostosa é visitar a pequena Crossbill Gin, que produz um dos gins mais aromáticos do país. Ali, sob o olhar atento do proprietário Jonathan Engels e utilizando ingredientes 100% escoceses, podemos destilar, na hora, nosso próprio gim durante os workshops promovidos por ele em sistema privado ou grupos de no máximo oito pessoas. Voltei de viagem feliz da vida com o meu!

 

Espírito Highlander
Lagos, castelos, destilarias, vilarejos bucólicos, estradas cênicas, lendas e referências cinematográficas que vão de Disney a Monty Python: assim são as Highlands, as terras altas escocesas que ocupam a maior parte do território nacional. O trajeto direto de Edimburgo até Inverness pode levar até seis horas. Mas quem escolhe a rota mais longa, a A82, margeia lagos e castelos em uma estrada que é considerada uma das mais bonitas da Europa. Dos campos floridos da primavera à neve do inverno, a paisagem por ali é sempre impressionante. No menu de castelos da região, há de tudo, do prosaico Doune Castle, que serviu de cenário para Monty Python e o Cálice Sagrado, ao exuberante Cawdor Castle. Um dos mais famosos está em ruínas: trata-se do castelo de Urquhart, destruído em guerra, e idilicamente localizado às margens do mítico Lago Ness.

O imenso lago escocês mundialmente famoso pela lenda do monstro homônimo tem mais de quarenta quilômetros de extensão e é rodeado por vilarejos, ruínas, igrejas e paisagens arrebatadoras. Suas estradas também guardam a Whisky Trail, rota cênica escocesa ladeada por destilarias. A produção de uísque (nacionalmente chamado de “água da vida”) concentra ali seus maiores e mais históricos rótulos.

O Reino de Fife
O nome não poderia ser mais pomposo: Reino de Fife, por ser terra de antigos monarcas escoceses (é lá que fica Dunfermline, antiga capital escocesa). Internacionalmente famoso na telona e na telinha (suas terras serviram de cenário para diversas produções hollywoodianas e séries, de Carruagens de Fogo a The Outlander), e também por ter sido o local onde o Príncipe William e sua Kate se conheceram, Fife ainda é um segredo bem guardado do turismo de massa. Tomada por campos de golfe (são mais de 40), a região tem uma beleza cênica toda particular, como uma espécie de zona de transição entre o sul do país, mais industrial, e o norte, mais rural.

A costa recortada é repleta de vilarejos com marinas de pescadores, ruínas de castelos e simpáticas casinhas de pedras na fachada – como Crail, Anstruther e Falkland, todas também cenários de The Outlander. St Andrews é a cidade mais visitada, mas também com a melhor infraestrutura turística e hoteleira, de hotéis- -boutique como Rufflets, Kinnettles e Hotel du Vin, até um enorme Fairmont com vista ao mar. É também em St Andrews que fica a mais antiga universidade da Escócia (e uma das mais antigas da Europa), o que justifica o fato de, apesar de pequena, ter uma vida noturna tão agitada. Como fiquei por lá durante um final de semana, fiz questão de me juntar aos locais num animado cèilidh, o tradicional baile de danças típicas escocesas – animação contagiante do começo ao fim!

 

Quando ir
Maio a outubro

 

* Mari Campos é jornalista especialista em conteúdos de turismo de alto padrão e passa a maior parte do ano em aventuras mundo afora, que rendem colaborações para diversas publicações nacionais e estrangeiras

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