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Pela vivaz e imaginativa Cartagena

30/08/2018
Arquitetura e traços culturais cartageneiros fascinaram Gabriel García Márquez
Cena típica das ruas de Cartagena e a Catedral Santa Catalina de Alejandría ao fundo

Dentro de suas muralhas icônicas, a cidade colonial mais charmosa do litoral colombiano se revela musa inspiradora do maior escritor do país. Sob a égide de um forte colossal diante do Mar do Caribe, por entre igrejas multicentenárias e perdendo-se na labiríntica Cidade Velha, mergulhe no universo que impulsionou Gabo em seu legado literário - um dos mais notáveis do século 20. Por Felipe Mortara. Especial para a The Traveller.


Quem já leu qualquer romance de Gabriel García Márquez (1927 - 2014) entenderá Cartagena de um jeito diferente. Algumas sutilezas e nuances da mais bela entre as poucas cidades muradas latino-americanas se revelam doces e lógicas aos olhos dos que tiveram contato com o realismo mágico do escritor. 
 

Premiado com o Nobel de Literatura em 1982, o autor deixa a influência da cidade transpassar as obras que se passam ali, como O Amor nos Tempos do Cólera e Do Amor e Outros Demônios. Basta uma breve caminhada para perceber o potencial inspirador do casario colonial de cores vibrantes, cercado por um labirinto de paralelepípedos perfeitinhos.
 

Tudo parece fazer sentido. Basta desembarcar em Cartagena – principal cidade do Caribe colombiano com cerca de um milhão de habitantes – para logo sentir vontade de inventar um mundo próprio. Ótimo ponto de partida é seguir os passos do próprio Gabo, como todos os colombianos o chamam.
 

Nascido na pequenina Aracataca, a 260 quilômetros, o autor chegou na cidade aos 21 anos de idade e construiu ali boa parte de seu imaginário. “Foi só dar um passo dentro da muralha para vê-la em toda sua grandeza à luz violeta das seis da tarde, e não pude reprimir o sentimento de ter voltado a nascer”, relata em sua autobiografia, Vivir para Contarla.
 

Um sem-fim de batalhas e conquistas marcou a trajetória da cidade ao longo dos séculos de colonização espanhola. Entre 1533 e 1816, conflitos militares e religiosos influenciaram a dinâmica da cidade, a última na Colômbia a conquistar sua independência.
 

Impávido há mais de 360 anos, o Forte de San Felipe de Barajas outrora protegeu a cidade de invasores e de saqueadores de ouro, mas hoje é apenas seu cartão-postal mais simbólico. Por outro lado, o necessário e dolorido Museu da Inquisição narra as agruras da perseguição católica aos não convertidos e dá um bê-á-bá do passado de Cartagena e do país.
 

Antes de apurar suas muitas matérias como repórter do jornal El Universal, García Márquez chegou à cidade em 1948 sem um tostão no bolso. Num banco da aconchegante Plaza de Bolívar pegou no sono até ser acordado por policiais e encaminhado à delegacia. O acaso abusou do imponderável ao colocá-lo numa cela destrancada, com cama e comida.
 

Saiu no dia seguinte para flanar pela cidade e criar seu universo de realismo mágico. Embora possa parecer um tanto desagradável carregar mais um aparelho além de câmera e celular, um áudio-guia pode ser a sua porta de entrada para este mundo paralelo criado por Gabo.
 

Elaborado pela Tierra Magna em parceria com a Fundação Gabriel García Márquez para o Novo Jornalismo Ibero-americano, o roteiro autoguiado surpreende. Munido de um mapa exclusivo e detalhado, você percorre 35 pontos que se confundem entre o imaginário e a própria história do escritor.
 

Nos ouvidos, locutores narram em leituras intensas – em espanhol ou inglês – trechos de suas principais obras e as conectam com aqueles lugares. Em plena Porta do Relógio, quase dá para visualizar um certo coronel José Manuel Buendía, com bigode farto e montando um burro, a interromper o discurso do então candidato à presidência Jorge Eliécer Gaitán.
 

O homem real contava causos da Guerra dos Mil Dias (1899-1902) e de como havia se curado de um tiro nas águas do Rio Madalena. Assim, inspirou o nascimento do clã Buendía, protagonista ficcional de Cem Anos de Solidão, de 1967, sua obra mais famosa.
 

Principal entre as 44 igrejas de Cartagena, a Catedral atua quase como protagonista em O Amor nos Tempos do Cólera. É onde ocorre o encontro de Florentino Ariza e Fermina Daza, e onde ele lhe entrega uma carta de amor durante a missa de Natal. Também é o cenário do casamento de Fermina com Juvenal Urbino e do funeral deste.
 

Logo ao lado, na Plaza de la Proclamación, Fermina foi coroada deusa. Aproveite a energia hoje viva e pulsante da bela cidade, com muitas opções de bares e ótimos restaurantes, mas García Márquez sempre retratou Cartagena como escravista e cruel.
 

As docerias e lojas de souvenir que hoje dividem as arcadas em tons laranjas e amarelados do Portal de los Mercaderes não deixam imaginar o que se passava ali há mais de 200 anos. Neste local eram leiloados escravos trazidos da África e foi onde Sierva María de Todos los Ángeles, protagonista de Do Amor e Outros Demônios, foi mordida por um cão raivoso e passou a ser possuída pelo diabo.
 

Enfim, mais do que uma imersão na vida e obra de Gabo, o que o roteiro revela é uma Cartagena farta de detalhes e inspiração – a flutuar por todos os cantos. Basta você vir encontrar. 


Quando ir
dezembro a março e de julho a agosto

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