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Nova Zelândia de cima a baixo

17/04/2019

O país que é conhecido pelas viagens de aventura vai muito além. Descubra sete experiências naturais espetaculares para explorar as ilhas de norte a sul.

Por Daniel Nunes Gonçalves*. Especial para a The Traveller.

 

Mais de 80 vulcões, cerca de 3 mil glaciares, 15 mil quilômetros de litoral, 3.920 lagos a perder de vista, nada menos que 23 montanhas acima de 3 mil metros de altitude. Se fosse possível avistar de cima toda a Nova Zelândia, esse pequeno grande país da Oceania formado por duas ilhas de geografia superdiversa, o cenário seria essa explosão contrastante de natureza bruta. Em poucos lugares do planeta concentram-se, a uma distância tão curta de um ponto a outro, o fogo e o gelo, o pico nevado e o fundo do mar povoado de baleias. Basta abrir o mapa e observar seus relevos e distâncias para constatar outras boas surpresas. Primeiro, que há boas estradas por todo lado levando a esses refúgios naturais a partir de cidades grandes que, de tão modernas e focadas em qualidade de vida, parecem ter um pé no futuro. É o caso de Auckland, Rotorua e Wellington, na Ilha Norte - porção mais habitada, vulcânica e praieira -, e de Christchurch e Queenstown, na Ilha Sul - mais verde, repleta de glaciares e picos nevados no entorno da cadeia dos Alpes do Sul.

Outra realidade notável reside no fato de que o país é um dos mais próximos da Linha Internacional de Data, linha imaginária antagônica ao Meridiano de Greenwich e que demarca a mudança do dia no mundo. Ou seja: quando 1º de janeiro de 2019 chegar, os neozelandeses estarão entre os primeiros a celebrar a chegada do ano-novo – algo que nós brasileiros só faremos 15 horas depois. Essa diferença de fuso horário faz com que os latinos, ao pousar lá, demorem um pouco para adaptar seus corpos ao tempo da Nova Zelândia. Em compensação, podemos voar à Oceania via Oceano Pacífico, o que significa viajar por apenas cerca de 13 horas para chegar em Auckland desde Buenos Aires, na Argentina, ou Santiago do Chile. O espetáculo natural da Nova Zelândia está mais perto do que parece - e pode ser experimentado de forma especial fazendo como exercitamos aqui: de cima para baixo, para entender melhor uma geografia que só existe ali.

1- De Auckland às vinícolas de Waiheke vondo em hidroavião
Debruçada de frente para o azulão do Golfo de Hauraki, formado por 54 ilhas, a maior cidade da Nova Zelândia encanta moradores e visitantes já na ampla área urbanizada do seu Waterfront. De um lado do longo calçadão com ciclovia, estão os bares, restaurantes, lojas e museus do Viaduct Harbor. Do outro lado, descansam embarcações de todos os tipos, cena que se multiplica quando a capital mundial da vela sedia grandes eventos náuticos como America’s Cup e Volvo Ocean Race. É dessas marinas que partem ferry-boats para ilhas vizinhas como Waiheke, a maior da baía, famosa por suas 34 vinícolas. A travessia de meia hora até lá é uma linda oportunidade de ver o skyline de Auckland à distância.

Para ter uma visão mais privilegiada – e com direito a emoção –, fiz a travessia pelo ar, em um hidroavião: um legítimo De Havilland DHC-2 Beaver 1961, raridade da aviação mundial. Se embarcar a partir de um píer já tinha soado inusitado, mais diferente foi ter de tirar os calçados, depois de um sobrevoo incrivelmente cênico sobre o arquipélago, para sair do avião e molhar os pés quando ele pousa na parte rasa da praia na ponta leste de Waiheke. Já em areia firme, o desafio do viajante está em escolher em quais das vinícolas passar o dia. Testei – e aprovei – a Man O’ War, virada para o mar, e a Mudbrick, com restaurante de frente para as videiras. E com direito a uma deliciosa exploração de praias charmosas entre uma degustação e outra.


2 - Sobre a bela Bay of Islands, amada por mergulhadores
Escolher as melhores praias em um país com litoral tão vasto não é missão fácil. Para quem ama o fundo do mar, o melhor a fazer é seguir os mergulhadores – e eles rumam ao norte de Auckland. Uma jornada de 3 horas por terra conduz a Waitangi, ponta da ilha onde o Mar da Tasmânia encontra o Oceano Pacífico e que virou sítio histórico em 1840, quando 540 líderes maoris assinaram um acordo de paz com os colonizadores britânicos. No caminho, passa-se pelos dois pontos favoritos para mergulho: Poor Knights e Bay of Islands. Mesmo quem não encara máscara, snorkel e cilindro de ar comprimido pode viver momentos memoráveis na região: basta embarcar em um sobrevoo pelas ilhotas que pontilham as águas azuis – e com direito a parada cheia de adrenalina no topo do Hole in the Rock, um rochedo no meio do oceano.


3 - Da comunidade maori de Rotorua à boca do vulcão ativo
Localizada 3 horas de carro ao sul de Auckland, Rotorua reúne a maior população neozelandesa de maoris, como são chamados os primeiros habitantes de origem polinésia que começaram a habitar há quase mil anos esta terra batizada como Aotearoa. O nome, cuja tradução seria “terra da grande nuvem branca”, se devia à primeira imagem que os navegadores tiveram daquelas ilhas: a de um lugar que soltava o vapor de seus vulcões. Por estar sobre um território vulcânico, Rotorua tem gêiseres que jorram jatos de água fervente, esconde cachoeiras de água quente e poças de lama medicinal em suas florestas – além da oportunidade de conhecer a cultura viva dos maoris. O auge da emoção de entrar em contato com o magma quente do centro do planeta acontece na visita ao vulcão Whakaari, em White Island. Dá para chegar ali de barco, a partir da cidade de Whakatane, na costa de Bay of Plenty, ou de helicóptero. O coração dispara quando a aeronave avança do continente ao mar e se aproxima da imagem do cone esfumaçado no oceano. O pouso em meio a poças borbulhantes de lama grafite e rochas em tons de amarelo e laranja, em função do enxofre, dá a sensação de que pisamos em outra galáxia. Para caminhar rumo à boca do vulcão, máscaras são necessárias para evitar que se respire os gases tóxicos. Por fim, a chegada à borda da cratera para ver sua lama fumegante dá aquela sensação única de chegar onde pouca gente pisou.


4 - Na capital Wellington, arte e arquitetura nas alturas da baía
Quem aterrissa na capital Wellington, na ponta sul da Ilha Norte, e observa a pequena baía cercada por montanhas verdes vê até alguma semelhança com a geografia do Rio de Janeiro. Menor, mais jovem e refinada que Auckland, a cidade de 400 mil habitantes respira arte e cultura, como se nota nos bairros à beira d’água e no bochicho de cafés, brechós e restaurantes da agradável Rua Cuba. O Museu da Nova Zelândia Te Papa Tongarewa mistura arte contemporânea com ossada de baleia. Até abril, a exposição Gallipoli: The Scale of Our War rememora uma das batalhas da Primeira Guerra Mundial por meio da história de personagens reproduzidos de forma hiperrealista com bonecos de cerca de três metros de altura. A autoria é do nativo Peter Jackson, que dirigiu a trilogia O Senhor dos Anéis e tem seu estúdio e algumas locações da série abertas à visitação na região. Perto dali, no alto da colina de Khandallah, a casa do famoso estúdio local de arquitetura Athfield Architects, com seis andares voltados para a baía, é uma obra-prima humana alocada em um ponto que dá a dimensão da beleza de Wellington. A imensidão azul que se descortina convida a cruzar de balsa as 3 horas do Estreito de Cook que conduzem à Ilha Sul.

5 - Em Mount Cook, pousando de ski-plane no gelo do glaciar
Montanha mais alta da Nova Zelândia, com 3.725 metros, o Mount Cook foi o campo de treinos de ninguém menos que o neozelandês Sir Edmund Hillary, primeiro homem a pisar no Everest, maior pico do planeta, em 1953. Hoje a grande montanha, chamada de Aoraki pelos maoris, é a estrela do Parque Nacional de Mount Cook, uma maravilha natural repleta de trilhas na Ilha Sul. Embora o pico seja privilégio dos grandes escaladores, reles mortais como nós podem ter a experiência de ver o mundo lá do alto ao embarcar em um sobrevoo panorâmico. Além de rodear o Mount Cook, as aeronaves sobrevoam os maiores glaciares do país, como o Tasman, o Fox e o Franz Josef. A aventura fica ainda mais especial se a aeronave for um ski-plane, como são chamados os aviões que deslizam no gelo. Na hora do pouso no Glaciar Tasman, dá um frio na barriga antes que os esquis encostem na neve. O toque no solo, no entanto, é mais fofo do que seria o de pneus de um jato comercial em chão firme. Ao sair do avião, uma surpresa: a neve chega a bater na altura do joelho, um convite a se jogar feito criança na fofura branca.


6 - Avistagem de baleias e golfinhos em Kaiokura
A maior cidade da Ilha Sul é Christchurch, tida como a que melhor preserva a herança dos colonizadores britânicos. Ela anda cada vez mais moderninha e repleta de boa arte de rua depois da revitalização pós-terremoto de 2016. Christchurch ganhou fama recente de capital gastronômica do país por abrigar restaurantes como o Roots, do Chef Giulio Sturla, eleito o número 1 da Nova Zelândia. Outro título da região de Christchurch e Canterbury é o de melhor ponto de observação de baleias e golfinhos. Basta dirigir até a praia de Kaikoura e fazer um passeio de barco ou um sobrevoo. O avião em que embarquei começou seguindo cachalotes, jubartes e grupos com dezenas de golfinhos e terminou sobrevoando os picos nevados – que, incrivelmente, ficam bem em frente ao mar.
 

7 - Sobrevoo de helicóptero de Queenstown aos fiordes
A combinação de casas e comércios cheios de charme, bosques floridos e picos nevados à beira do Lago Wakatipu seria motivo suficiente para que ninguém quisesse sair de Queenstown, a cidade mais cênica da Ilha Sul. Quem viaja para a capital da aventura na Nova Zelândia sabe, no entanto, que seus arredores justificam esticadas para quem busca a adrenalina de saltar de bungee jump e sky-dive, praticar jetboat ou fazer alguns dos trekkings mais lindos do mundo.

A esticada mais deslumbrante, no entanto, é a que leva ao Parque Nacional dos Fiordes. Ainda que possam ser vistos de baixo, em navegações deliciosas, os paredões ganham proporções gigantescas quando avistados do alto do helicóptero. Os passeios podem parar nas alturas de um pequeno platô de uma montanha de neve ou na beira de uma praia deserta. Nessa última, a vastidão da paisagem convida a uma caminhada entre conchas do mar do tamanho da palma de uma mão, e com camadas de madrepérola que só deixam ainda mais evidente como a natureza da Nova Zelândia é épica. 

Quando ir: novembro a março


*Daniel Nunes Gonçalves é autor da reportagem sobre a Nova Zelândia e voltou ao país para viver as experiências de viagem de que mais gosta: em meio à natureza. O jornalista publicou sua primeira matéria de turismo aos 19 e nunca mais parou. É professor de jornalismo de viagem e pesquisador (quase mestre!) de narrativas de viagem contemporâneas.

 

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