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Eco & Enoturismo na Geórgia

12/02/2019

Cristas nevadas do Cáucaso, praias no Mar Negro, tradições musicais milenares, gente doce e hospitaleira, cultura nada ocidentalizada e, para completar, vinhos variados e a cozinha mais inspirada de toda a ex-União Soviética. Um pouco do país que celebra 100 anos de independência

Por Caio Vilela*. Especial para a The Traveller

 

“Visita de estrangeiros é motivo de festa” – brada Vakho, cantor e dono de pousada em Mestia, meu ponto de partida para adentrar um vale abrupto rumo ao povoado de Ushguli, um dos mais altos da Europa. Estou no coração de Svaneti, um conjunto de vales no Oeste do Cáucaso, seguramente entre os rincões mais remotos do continente. Vakho conversa em russo com a maioria dos hóspedes, arranha um inglês comigo, usa o idioma georgiano nas ruas e fala no dialeto svan com sua mulher e filhas. Em duas horas de carro, ele me conduz ao vilarejo a 2,1 mil metros de altitude, colado à fronteira russa. A primeira impressão é de estar em um cenário de filme de época. Inacessível por quatro meses no inverno, devido à neve na estrada, Ushguli tem poucas pessoas nas ruas, casas abandonadas e um silêncio quebrado apenas pelo barulho do Rio Enguri. Como pano de fundo, as geleiras do pico de Shkhara, ponto mais alto do território georgiano, com 5.193 metros, contrastam com o verde intenso do verão. Não espere encontrar lojinhas, restaurantes ou entretenimento. A poesia de Ushguli é sutil no grau de isolamento, no aroma dos campos floridos, no sorriso dos locais e nos detalhes da arquitetura milenar.

Svaneti, um conjunto de vales no Oeste do Cáucaso

Mesmo nos anos 1930, Ushguli era considerado um vestígio místico da história antiga. Nessa década, foi tema de um dos primeiros filmes etnográficos do mundo: Salt for Svanetia, que retrata vidas cotidianas. Caminhando pelas ruas vazias, sinto-me intimidado pela arquitetura pesada das torres-vigia. Um pequeno museu etnográfico fornece detalhes da história com textos em inglês: aparentemente idênticos entre si, tais pilares de pedra – alguns com 12 séculos de idade – protegiam os habitantes de ataques inimigos. Apesar da aparência de abandono, uma população da etnia svan habita continuamente o vilarejo, declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco. O isolamento de Svaneti fica para trás e a viagem segue rumo à capital, Tbilisi. No caminho, uma parada em Gori permite conhecer um museu único no mundo: dedicado à vida de Stalin, seu filho controversamente ilustre, seguramente o georgiano mais famoso da história. Diz a lenda que Stalin tinha um amor genuíno pela bebida e promovia festas com consumo volumoso, onde convidados eram intimados a beber, gostassem ou não. Hoje, as marcas de seu vinho tinto doce favorito – dois vermutes semidoces: Khvanchkara e Kindzmarauli – vendem bem graças ao marketing involuntário, e na lojinha do museu não é diferente.

A chegada à Tbilisi me faz lamentar ter apenas três dias para conhecer a cidade. Sob a sombra de uma fortaleza murada, caminho pelo Centro Histórico entre inúmeros restaurantes, museus, lojas de artesanato e, claro, adegas de vinho. Tudo identificado com letreiros escritos num curioso alfabeto, criado há mais de 1,5 mil anos pelo rei Pharnavaz de Kartli para a tradução dos textos religiosos que introduziram o cristianismo na Europa. Na esplanada à beira-rio, um centro cultural de arquitetura moderna e orgânica contrasta com as cúpulas cônicas das igrejas ortodoxas. Restaurantes servem o tradicional Kachapuri, losango de pão com queijo e ovo, e o Khinkhali, trouxinhas de massa recheada, além de outros pratos locais no melhor estilo comfort food. 

A Geórgia é orgulhosa de sua criativa gastronomia e tradição vinícola, e junto delas vem a famosa reputação de saber festejar. Presente na cultura local – e na religião –, o vinho faz parte do cotidiano georgiano desde antes de Cristo. Contam os mais velhos que até os anos 1970 era comum testemunhar oficiais de imigração dos aeroportos internacionais presenteando visitantes estrangeiros com uma garrafa na chegada. Em duas horas de carro a Leste de Tbilisi chego à província vinicultora de Kakheti, onde cavas e restaurantes espalhados entre as parreiras acolhem os visitantes. A Geórgia afirma ser o berço da vinicultura no mundo, graças aos achados arqueológicos que evidenciam sua produção há 8 mil anos, em duas aldeias neolíticas ao Sul de Tblisi. Armazenados no subsolo, grandes vasos de argila possibilitavam que o vinho envelhecesse na temperatura adequada.

Os mais antigos desses recipientes, hoje expostos em museus, trazem desenhos de uvas e homens dançando, provas persuasivas de seu propósito. Hoje, produtores locais correm atrás da modernização para competir com o mercado internacional. Não distantes da capital, outros lugares curiosos atraem pela autenticidade: a cidade-caverna de Vardzia, construída há quase mil anos; a Caverna de Prometeu, que teria abrigado uma das figuras mais notáveis da mitologia grega; e o Pilar de Katskhi, um penhasco vertical com um mosteiro no topo – semelhante a Meteora, na Grécia.

Esses pontos rendem interessantes passeios de um dia. Dez dias se passam como se fossem 15 minutos e deixo o país planejando voltar. As saudades de meu anfitrião Vakho (hoje meu amigo nas redes sociais) e a enorme lista de lugares não visitados deixam um sabor tão gostoso quanto o dos vinhos e pratos degustados

 

Quando ir

Abril a outubro. 

 

Onde ficar

Rooms Hotel Tbilisi
Tbilisi

O Rooms Hotel lidera o movimento contemporâneo local de unir a tradição georgiana ao contemporâneo. Localizado no bairro intelectual de Vera, o Tbilisi incorpora inteligentemente a história do edifício, além de homenagear seu passado cultural com muitos eventos de arte e música. Sofisticado em todos os detalhes, o hotel tem 125 quartos e suítes, combinando influências de design da Nova York dos anos 1930 com o charme das tradições da Geórgia.

Rooms Hotel Kazbegi
Kazbegi

Inteiramente renovado, o Rooms Hotel de Kazbegi tem como cenário as montanhas do Cáucaso e foi projetado como um autêntico refúgio alpino. As inspirações do projeto combinaram o legado histórico da região com o design contemporâneo nos quartos, suítes, restaurantes e ambientes internos. Destaque para os passeios oferecidos aos hóspedes, como voos panorâmicos de helicóptero – perfeitos para explorar Kazbegi e seus arredores.

 

* Caio Vilela - Já são mais de cem os destinos visitados pelo fotógrafo, jornalista e escritor paulistano. Autor de vários livros, produz conteúdo para veículos como Folha de S.Paulo, National Geographic, Veja e Rolling Stone desde 1994.

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