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Da Pérsia antiga ao Irã contemporâneo

30/08/2017
A principal mesquita de Esfahan (Foto Caio Vilela)
Loja de tapetes em Shiraz (Foto Caio Vilela)

Não é à toa que a palavra “paraíso” vem do persa “pardés ” e significa “jardim dos prazeres do rei”. Se há uma terra verde, próspera e fértil no meio da aridez que assola o Oriente Médio, esse paraíso se chama Irã.

Por Caio Vilela. Especial para Teresa Perez

 

Espalhada pelo extenso território, sua grande diversidade de paisagens e culturas ostenta um enorme potencial para o turismo. Porém o medo infundado do Islã, as desavenças geopolíticas de seus governantes (mas não do povo!) com os líderes ocidentais, e as restrições impostas pelo embargo econômico internacional – que impede, por exemplo, o uso de cartões de crédito em todo o país – inibem os viajantes menos informados. Assistir aos noticiários de TV não ajuda muito, principalmente durante a era Trump. Mas é pegar os livros de história e conversar com alguns iranianos para conhecer o outro lado da moeda e sonhar alto. Afinal, quem não deseja conhecer a Pérsia, berço de uma civilização tão antiga e importante historicamente quanto os gregos, os egípcios ou os romanos? No Irã, desertos cinematográficos, vulcões ativos, picos nevados, cidades históricas e sítios arqueológicos de relevância mundial esperam por um movimento de turismo internacional que já foi agitado e hoje anda tímido.

 

Na estrada
Com o peito estufado de determinação, embarquei em um voo da Qatar Airways, via Doha, para uma viagem de duas semanas por Shiraz (1), Esfahan (2), Yazd (3) e Teerã (4). Mitos e ideias pré-concebidas despencaram logo no desembarque no aeroporto de Teerã, o menos paranoico com segurança entre os mais de cem aeroportos internacionais onde já desembarquei. Com aproximados 12 milhões de habitantes, Teerã tem uma geografia marcada pelas montanhas Alborz ao norte e o deserto Dasht-e-Kavir ao sul. Na ruidosa e caótica trama urbana, muçulmanos xiitas e sunitas dividem a calçada com cristãos ortodoxos armênios, judeus nativos (o Irã abriga a maior população de judeus do Oriente Médio fora de Israel) e outros povos, compondo um mosaico de culturas e religiões que convivem pacificamente. Um cenário social fascinante, que viria a se repetir em outros destinos do roteiro.

 

Shiraz e Persépolis
Após uma hora de voo rumo ao sul, desembarco em Shiraz, cidade histórica onde, ainda hoje, a profusão de jardins públicos rompe a monocromia do deserto à volta.
Shiraz é a porta de acesso às ruínas de Persépolis e Pasárgada. Para a maioria dos visitantes, a antiga capital persa, governada pelo imperador Dário 521 anos antes
de Cristo, já justifica a viagem. Nas paredes do palácio de Persépolis, figuras em relevo registram glórias do tempo em que o império persa abrangia as terras da Índia ao Egito; e líderes babilônios, sírios e etíopes eram recebidos nos palácios de sua capital.

 

Yazd e Esfahan
Atravessando a cadeia de montanhas Zagros, a viagem segue para Yazd. Antigo centro de zoroastrismo, Yazd ainda preserva os rituais dessa antiga religião, que cultuava as forças da natureza antes da chegada do Islã, fé trazida pela invasão árabe no século 7. Para os visitantes, Yazd é como uma viagem no tempo. Suas ruelas estreitas e arquitetura de adobe nos fazem sentir em um conto das Mil e Uma Noites. Mas quando o encantamento parece ser impossível de superar, chego à cereja do bolo do roteiro: Esfahan! Representante máximo da cultura persa, entreposto de comércio ativo desde a época da Rota da Seda, este destino nobre e imperdível resume o esplendor da arte e da arquitetura em suas praças, palácios, bazares e mesquitas. Como poucos lugares do mundo de importância histórica semelhante, Esfahan não está abarrotada de turistas. Pelas ruas, vendedores de tapetes esperam visitantes com um semblante tímido e gentil, jamais pegajosos ou insistentes, como se vê em mercados de outros países islâmicos como Egito ou Marrocos. No bazar, que corta a cidade com 12 quilômetros de ruelas cobertas, mercadores entretêm os pedestres discorrendo sobre a arte de diferenciar os tapetes. Ali, afegãos, cazaques, turcos, paquistaneses e outros comerciantes povoam os corredores, revelando um palco de comércio que é um universo à parte.

 

A vida social entre os jovens acontece nas famosas casas de chá. Nessa agitada cidade universitária, a “noite” começa por volta de 18 horas e vai até pouco depois da meia-noite, todos os dias da semana, sem nenhum tipo de estímulo etílico. À base de chá preto e ghaliam, o cachimbo d’água presente em quase todo o Oriente Médio, jovens passam horas a fio envolvidos em conversas sobre poesia, história, cinema ou internet.

A sensação de segurança pelas ruas, a doçura do povo local e as inúmeras atrações deixam qualquer visitante indignado com a ignorância que a mídia ocidental propaga sobre essa terra. Mas o turismo há de demorar. É impossível negar que o Irã também tem um lado negro, em que uma repressão ao próprio povo é propagada pelas forças do poder. Cartazes anti-América estão espalhados pelas ruas das grandes cidades, e representam o pensamento dos religiosos mais radicais. Boa parte dos iranianos, no entanto, se orgulha de ser persa, não se identifica com o radicalismo islâmico e não gosta de ser confundido com o povo árabe. Muitos se sentem vítimas de um mal-entendido universal a respeito de sua cultura.

2 Comentários
Sonia Franco Do Amaral Da Silva Prado
02/09/2017
Muito bom depoimento do Sr. Vilela, encorajador para quem com eu, tem muita vontade de conhecer este lindo país

Fabio Kadi
02/09/2017
Fabio veja

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